segunda-feira, 29 de junho de 2026

Trutas na Espanha - Nos caminhos de Hemingway- Parte 1

             Eram 6h da manhã e eu não conseguia dormir devido a ansiedade. Abri a pesada janela de madeira do hotel e senti um cheiro que nunca havia sentido, era um misto do odor do curral de ovelhas logo abaixo e flores. 

            Da minha janela eu podia ver um pequeno trecho de um rio cristalino esverdeado, com uma mata ciliar exuberante. 

            Eu não estava sonhando, eu realmente estava a poucos metros do rio Irati, em Navarra, Espanha. 

            Desde os anos 90 eu alimentava o desejo de conhecer os rios e paisagens descritos por Ernest Hemingway em seu livro "The Sun Also Rises", "O Sol também se Levanta", em português. Em um dos capítulos do livro ele descreve com detalhes a pesca com mosca neste rio.

          Hemingway é muito conhecido por seu best-seller "O velho e o Mar", porém, escreveu muitas obras primorosas, onde fala de Guerra, paixão, caça e pesca. Era um ávido pescador de Fly, caçador e bom vivant, jornalista de profissão, cobriu guerras e viajou o mundo escrevendo para grandes jornais e revistas.

            É meu escritor estrangeiro favorito e me inspirou a iniciar no mundo da pesca com mosca.

            Minha aventura começa uma semana antes, quando me encontro com meu  amigo Antonio Sevilla, em Madri. Depois de me apanhar no aeroporto de Barajas me levou ao centro da cidade para tomarmos café da manhã e visitar um Fly shop. Precisava de alguns itens "essenciais". Quem é pescador entende.




            Depois de responder dezenas de perguntas feitas pelo dono do Fly Shop sobre os  peixes brasileiros e pegar meus itens indispensáveis, finalmente seguimos viagem em direção a Catalunha, onde daríamos inicio a pescaria.

            Foram cerca de 7h de viagem, incluindo uma parada para almoço e abastecimento. Ainda era dia quando entramos na pousada, apesar de ser 20h. No verão europeu os dias são extremamente longos.

            Acordamos bem cedo no outro dia e após um breve café com churros e Pan con Jamon, seguimos para o rio Segre, famoso pela pesca de trutas nos Pirineus.


            Começamos batendo um trecho bem largo e raso, onde conseguimos ver algumas trutas e barbos comendo. Depois de alguns minutos, Antonio conseguiu enganar a primeira truta da viagem, com uma Adams em anzol #'14, uma linda marrom, na faixa de 500g.

            Após tentar exaustivamente nesse trecho, sem sucesso, comecei a subir o rio em busca de outro ponto.

            Cerca de 300m acima avistei um enorme poço, onde algumas trutas pequenas comiam na superfície. Já tinha trocado de mosca várias vezes, tentando achar o que elas comiam, quando olhei para um gafanhoto atado em um anzol #8 que descansava na flybox há anos, pois onde moro, raramente os uso. Mesmo correndo o risco de ser julgado pelo meu amigo purista que só usa dryflies diminutos e clássicos, atei o hopper de E.V.A num tippet de 12 pés, 4x. A vara era uma orvis trident 5wt em conjunto com uma carretilha Teton 3/4, carregada com uma linha flutuante número #4. (tática comum para suavizar a apresentação da mosca).

            Lancei bem no meio do poço e corrigi algumas vezes a trajetória da isca para evitar o "drag" usando mends. No terceiro arremesso vejo um vulto prateado subir e abocanhar sem cerimônia a isca e saltar logo em seguida, era uma arco-iris enorme!

            Comecei a gritar para que o Antonio viesse até mim para me ajudar naquele embate que estava começando.

            Aquele bólido desgovernado tomava linha e saltava sem parar, aumentando minha agonia. Após alguns minutos, que pareceram intermináveis, ela se entregou e entrou suavemente no passaguá sustentado pelo meu parceiro incrédulo que gritou: "Por Dios". Ficou mais surpreso ainda quando viu na boca do peixe aquela isca pouco ortodoxa naquelas bandas. Sorri discretamente e não disse nada.

            Minha emoção era tanta que não conseguia proferir uma palavra sequer, só balançava a cabeça positivamente. Fotografamos e liberamos minha primeira truta européia, e que truta!







            Meu dia estava ganho, o que viesse agora seria lucro. Continuamos batento aquele poço que nos presenteou com mais algumas trutas marrons de médio e pequeno porte.




            Só conseguimos parar para almoçar umas 16h, pois, as ações não cessavam.
Entramos num restaurante bem próximo do rio, vestidos de waders e pesados coletes de pesca.
            Entrei de cabeça baixa de vergonha, achando que chamaríamos atenção, ledo engano, quase todos naquele lugar vestiam waders e conversavam animados sobre as capturas do dia. 
            O salão todo em madeira tinha suas paredes ornadas com Trutas enormes e cabeças de servos empalhados, a comida era ótima e a cerveja forte e gelada.
            Retornamos ao rio às 18h e passamos as próximas 2 horas mais conversando doque pescando, pois as ações diminuíram drasticamente, muito provavelmente devido uma eclosão de "Caddis" que se seguiu pela tarde toda.
            Voltei para a pousada com a alma leve, não conseguia tirar aquela truta da minha cabeça. Após o jantar, nos sentamos em frente a lareira do hall principal (apesar de ser verão fazia 5 graus centígrados) e escutamos histórias de grandes capturas ocorridas no passado glorioso do rio Segre, narradas com entusiasmo pelo dono da pousada, que se gabava de ser um "Gran Pescador de Cola de rata".
            Pescamos mais um dia nesse local, sem grandes capturas e no terceiro dia partimos para o norte, em direção a Andorra, e depois ao sul da França onde tentaríamos algum Tímalo, conhecido na América do norte como Grayling.

Continua...














quarta-feira, 30 de março de 2016

Chegou o outono.



As folhas das árvores que tem em frente a minha casa estão caindo com mais intensidade, o vento já sopra mais frio, principalmente à noite, o por do sol apresenta cores mais vivas e as chuvas parecem estar diminuindo, é, parece que o outono chegou e junto com ele a esperança de capturar bons exemplares de tucunarés.
Nos últimos 5 anos venho pescando com caiaque nas lagoas aqui da região e observando o comportamento dos peixes em cada época do ano. É bem verdade que inúmeros fatores influenciam nesse comportamento, porém, notei um padrão em relação a cada estação.
A maioria dos grandes exemplares de tucunarés que peguei foram no outono. Nesta época as matrizes já desovaram e estão abandonando o cuidado parental (proteção dos alevinos) e se alimentando para reservar gordura para o inverno, quando seu metabolismo diminui consideravelmente e passam a se alimentar menos.

Como as noites são mais frias e os ventos mais frequentes, os peixes tendem a buscar suas presas em profundidades maiores, nos obrigando a fazer uso de técnicas diferentes das usadas nos períodos mais quentes. 
  Todo pescador de fly adora usar linha floating e iscas de superfície, nada se compara ao ataque de um tucunaré faminto em um popper, contudo, se quisermos incrementar nossas capturas com exemplares de grande porte, teremos que lançar mão de outros artifícios.
   Aqui vão algumas dicas básicas sobre o material que utilizo nessa época:
Na minha opinião, a principal alteração consiste no uso de linhas sinking tip ou full sinking, que farão com que suas iscas atinjam a profundidade desejada. Meu gosto pessoal recai sobre as linhas full sinking de afundamento rápido, com 250 grains e razão entre 4 e 5. 
Uma linha com este perfil exige uma vara mais potente, de preferência com ação de ponta, ou seja, rápida, número #7 ou #8.

   Em relação as iscas, contrariando a maioria dos pescadores, costumo usar streamers sem peso ou lastro, explico porque: Quando eu sei o quanto minha linha afunda por segundo (essa informação é definida com a sigla IPS-inches per second ou polegadas por segundo e costumam estar na caixa da linha ou no site do fabricante), eu arremesso e conto os segundos antes de começar a recolher e vou testando até achar onde o peixe está batendo, com uma isca sem peso faço ela trabalhar na mesma profundidade da linha.

 Uma dica importante é relativa ao tamanho da isca. Me parece que quanto mais "manhoso" o peixe, menor a isca deve ser. Já peguei tucunarés de 3kg com streamers de 5 à 7 cm!
 Para finalizar, o líder para linhas afundativas deve ter entre 1,00 e 1,20m de comprimento, no máximo, para que afunde ao mesmo tempo que a isca e a linha. Gosto de usar Fluorcarbono, sendo o Butt de 0,50mm e taper/tippet de 0,40mm.
   Espero que estes pequenos conselhos ajudem vocês a pescarem seus troféus nesse outono!
   Pesque e solte sempre.
   Grande abraço à todos.