sexta-feira, 10 de julho de 2026

Trutas na Espanha - Nos caminhos de Hemingway - Parte 2 Final

 Seguimos para o norte, por estradas estreitas serpenteando campos de ovelhas com seus muros de pedra, vilas medievais e vinhedos, por um instante (breve) até me esqueci que estava ali para pescar.

Chegamos a Andorra numa tarde fria e nublada, fazia 3°C e a visão do rio Valira, que corta a cidade de La Vieja já me fez tremer de vontade de dar uns arremessos.

Porém, naquele dia tínhamos outro compromisso, nos encontramos com a equipe Espanhola que iria representar seu pais no campeonato mundial de Flyfishing no dia seguinte, no referido rio.

Meu amigo Antonio, já fez parte da equipe e tem amizade com todos os integrantes. O encontro aconteceu na Casa Pintat, uma loja de pesca muito tradicional na Europa. Além dos espanhóis pude conversar com pescadores de várias partes do mundo, que estavam ali para o mundial. Foi uma experiência enriquecedora e serviu para ter a certeza que temos muito a evoluir e aprender em relação a pesca com mosca.

No dia seguinte bem cedo partimos para Prades, antigo vilarejo francês que mais parecia o cenário do filme Chocolate, estrelado por Juliette Binoche e Johnny Depp no ano 2000, ruas e casas de pedra alternados com espaços verdes às margens do rio Têt, famoso pelas suas trutas marrons e graylings.





Enquanto nos dirigíamos para o rio fomos atraídos por um cheiro de pão recém assado que impregnava o ar, vindo de uma pequena boulangerie, onde nos abastecemos de alguns itens para o almoço.



A pescaria de grayling é bastante técnica, exigindo uma apresentação perfeita da mosca e atenção total na hora da fisgada, pois é muito arisco e possui a boca bem pequena e voltada para baixo.

Confesso que levei uma "surra" do peixe, quando conseguia fazer com que ele atacasse a isca eu perdia a fisgada. Minha sorte foi que algumas trutas marrons se interessaram pelos meus dryflies e fizeram minha tarde feliz.



Nos últimos momentos de pescaria, quando eu já estava até conformado com a derrota, minha Elk Hair Caddis #16 finalmente foi engolida por um pequeno exemplar que saltou diversas vezes antes de entrar no net e exibir sua característica nadadeira dorsal avantajada. (infelizmente a foto não faz jus ao peixe)

Me permitam uma observação aqui; uma das coisas mais fascinantes em relação ao Fly é que mesmo a captura de um peixe pequeno pode nos trazer enorme satisfação, pois o que conta no final é o modo como o enganamos.



Nossa rápida e inesquecível passagem pelo sul da França terminou e partimos finalmente para Navarra, onde seria o "Gran Finale"da viagem, o rio Irati.

Chegamos à noite em Burgete-Navarra e nos hospedamos num antigo hostel, jantamos e fomos dormir, ou no meu caso, tentar.

Logo após o café da manhã, depois da noite mal dormida, evento comum que antecede grandes pescarias, vestimos nossos waders e fomos caminhando até o rio.

Antes mesmo de chegar, a emoção já tomava conta de mim, os primeiros vislumbres daquele rio que habitou meus sonhos por mais de vinte anos me fizeram ficar quase que em estado êxtase, como conseguiria atar a mosca ao anzol, ou arremessar, já que não parava de tremer?

Antonio percebeu que meus passos ficaram mais lentos e descoordenados, colocou a mão no meu ombro e disse: "Te acalma amigo, vamos a pescar".


O rio doa meus sonhos não era o mais bonito da viagem, mas, tinha algo no ar, uma aura diferente. Eu ficava imaginando onde Hemingway teria entrado, em que trecho teria gelado seu vinho, onde teria capturado sua primeira truta, será que arremessava bem sua vara de fiberglass? 

Na tentativa de reviver os passos do autor e seus parceiros de pesca, atei ao lider de 12 pés uma Mc Ginty, uma wet fly desenvolvida por Charles Mc Ginty em 1883. 


Não costumo usar wetflies, a menos que a situação exija, mas, essa eu tinha que usar para tornar a experiência completa. Arremessei rio acima e deixei a isca derivar da melhor maneira possível, uma, duas, dez, vinte vezes, neste ponto, nada... Subi o rio enquanto admirava a beleza do lugar, nunca havia pescado em um rio praticamente urbano como aquele, ladeado por lindas construções históricas.

Em uma curva do rio com uma enorme muralha na margem, consegui ver uma truta comendo na superfície e arremessei, "Bále", como dizem os espanhóis, peguei!

Depois de algumas corridas e cabeçadas no fundo ela se entregou, minha primeira truta do rio Irati era uma linda marron.





Depois de fotografar e liberar o peixe fiquei pensando o quanto era privilegiado por estar vivendo aquele momento, quanta alegria a pesca com mosca me proporcionou, me levou a lugares inimagináveis e me fez conhecer pessoas maravilhosas.

O dia seguiu com algumas capturas esporádicas, ora em dry fly, ora em wet. 



No final da tarde, em um trecho estreito do rio avistei uma linda arcoíris atrás de uma pedra, ela não se movia para se alimentar, mas, tentei a sorte com um dropper composto por uma Royal Wulff #10 e um perdigón #16, na primeira deriva ela subiu rapidamente e abocanhou a pequena ninfa atada num tippet 5x, que briga! Como ela engoliu a isca, meu medo era que o fino elo entre nós se rompesse. Após alguns saltos espetaculares ela se rendeu e pude alcança-la com o net. Seu maxilar inferior proeminente demonstrava ser um belo exemplar macho.



Não poderia pedir um desfecho melhor para esta aventura, imaginei Hemingway na margem, com seu cachimbo na boca, balançando positivamente a cabeça enquanto admirava minha truta.







                                                       Hostel Burgete (Fonte internet)



                                            Hemingway pescando trutas em Idaho, 1939 (Fonte internet)



                                            Antonio com uma bela truta



Esta viagem foi em 2012 e as fotos foram tiradas com uma máquina fotográfica de baixa resolução.








segunda-feira, 29 de junho de 2026

Trutas na Espanha - Nos caminhos de Hemingway- Parte 1

             Eram 6h da manhã e eu não conseguia dormir devido a ansiedade. Abri a pesada janela de madeira do hostel e senti um cheiro que nunca havia sentido, era um misto do odor do curral de ovelhas logo abaixo e flores. 

            Da minha janela eu podia ver um pequeno trecho de um rio cristalino esverdeado, com uma mata ciliar exuberante. 

            Eu não estava sonhando, eu realmente estava a poucos metros do rio Irati, em Navarra, Espanha. 

            Desde os anos 90 eu alimentava o desejo de conhecer os rios e paisagens descritos por Ernest Hemingway em seu livro "The Sun Also Rises", "O Sol também se Levanta", em português. Em um dos capítulos do livro ele descreve com detalhes a pesca com mosca neste rio.

          Hemingway é muito conhecido por seu best-seller "O velho e o Mar", porém, escreveu muitas obras primorosas, onde fala de Guerra, paixão, caça e pesca. Era um ávido pescador de Fly, caçador e bom vivant, jornalista de profissão, cobriu guerras e viajou o mundo escrevendo para grandes jornais e revistas.

            É meu escritor estrangeiro favorito e me inspirou a iniciar no mundo da pesca com mosca.

            Minha aventura começa uma semana antes, quando me encontro com meu  amigo Antonio Sevilla, em Madri. Depois de me apanhar no aeroporto de Barajas me levou ao centro da cidade para tomarmos café da manhã e visitar um Fly shop. Precisava de alguns itens "essenciais". Quem é pescador entende.




            Depois de responder dezenas de perguntas feitas pelo dono do Fly Shop sobre os  peixes brasileiros e pegar meus itens indispensáveis, finalmente seguimos viagem em direção a Catalunha, onde daríamos inicio a pescaria.

            Foram cerca de 7h de viagem, incluindo uma parada para almoço e abastecimento. Ainda era dia quando entramos na pousada, apesar de ser 20h. No verão europeu os dias são extremamente longos.

            Acordamos bem cedo no outro dia e após um breve café com churros e Pan con Jamon, seguimos para o rio Segre, famoso pela pesca de trutas nos Pirineus.


            Começamos batendo um trecho bem largo e raso, onde conseguimos ver algumas trutas e barbos comendo. Depois de alguns minutos, Antonio conseguiu enganar a primeira truta da viagem, com uma Adams em anzol #'14, uma linda marrom, na faixa de 500g.

            Após tentar exaustivamente nesse trecho, sem sucesso, comecei a subir o rio em busca de outro ponto.

            Cerca de 300m acima avistei um enorme poço, onde algumas trutas pequenas comiam na superfície. Já tinha trocado de mosca várias vezes, tentando achar o que elas comiam, quando olhei para um gafanhoto atado em um anzol #8 que descansava na flybox há anos, pois onde moro, raramente os uso. Mesmo correndo o risco de ser julgado pelo meu amigo purista que só usa dryflies diminutos e clássicos, atei o hopper de E.V.A num tippet de 12 pés, 4x. A vara era uma orvis trident 5wt em conjunto com uma carretilha Teton 3/4, carregada com uma linha flutuante número #4. (tática comum para suavizar a apresentação da mosca).

            Lancei bem no meio do poço e corrigi algumas vezes a trajetória da isca para evitar o "drag" usando mends. No terceiro arremesso vejo um vulto prateado subir e abocanhar sem cerimônia a isca e saltar logo em seguida, era uma arco-iris enorme!

            Comecei a gritar para que o Antonio viesse até mim para me ajudar naquele embate que estava começando.

            Aquele bólido desgovernado tomava linha e saltava sem parar, aumentando minha agonia. Após alguns minutos, que pareceram intermináveis, ela se entregou e entrou suavemente no passaguá sustentado pelo meu parceiro incrédulo que gritou: "Por Dios". Ficou mais surpreso ainda quando viu na boca do peixe aquela isca pouco ortodoxa naquelas bandas. Sorri discretamente e não disse nada.

            Minha emoção era tanta que não conseguia proferir uma palavra sequer, só balançava a cabeça positivamente. Fotografamos e liberamos minha primeira truta européia, e que truta!







            Meu dia estava ganho, o que viesse agora seria lucro. Continuamos batento aquele poço que nos presenteou com mais algumas trutas marrons de médio e pequeno porte.




            Só conseguimos parar para almoçar umas 16h, pois, as ações não cessavam.
Entramos num restaurante bem próximo do rio, vestidos de waders e pesados coletes de pesca.
            Entrei de cabeça baixa de vergonha, achando que chamaríamos atenção, ledo engano, quase todos naquele lugar vestiam waders e conversavam animados sobre as capturas do dia. 
            O salão todo em madeira tinha suas paredes ornadas com Trutas enormes e cabeças de servos empalhados, a comida era ótima e a cerveja forte e gelada.
            Retornamos ao rio às 18h e passamos as próximas 2 horas mais conversando doque pescando, pois as ações diminuíram drasticamente, muito provavelmente devido uma eclosão de "Caddis" que se seguiu pela tarde toda.
            Voltei para a pousada com a alma leve, não conseguia tirar aquela truta da minha cabeça. Após o jantar, nos sentamos em frente a lareira do hall principal (apesar de ser verão fazia 5 graus centígrados) e escutamos histórias de grandes capturas ocorridas no passado glorioso do rio Segre, narradas com entusiasmo pelo dono da pousada, que se gabava de ser um "Gran Pescador de Cola de rata".
            Pescamos mais um dia nesse local, sem grandes capturas e no terceiro dia partimos para o norte, em direção a Andorra, e depois ao sul da França onde tentaríamos algum Tímalo, conhecido na América do norte como Grayling.

Continua...