Eram 6h da manhã e eu não conseguia dormir devido a ansiedade. Abri a pesada janela de madeira do hotel e senti um cheiro que nunca havia sentido, era um misto do odor do curral de ovelhas logo abaixo e flores.
Da minha janela eu podia ver um pequeno trecho de um rio cristalino esverdeado, com uma mata ciliar exuberante.
Eu não estava sonhando, eu realmente estava a poucos metros do rio Irati, em Navarra, Espanha.
Desde os anos 90 eu alimentava o desejo de conhecer os rios e paisagens descritos por Ernest Hemingway em seu livro "The Sun Also Rises", "O Sol também se Levanta", em português. Em um dos capítulos do livro ele descreve com detalhes a pesca com mosca neste rio.
Hemingway é muito conhecido por seu best-seller "O velho e o Mar", porém, escreveu muitas obras primorosas, onde fala de Guerra, paixão, caça e pesca. Era um ávido pescador de Fly, caçador e bom vivant, jornalista de profissão, cobriu guerras e viajou o mundo escrevendo para grandes jornais e revistas.
É meu escritor estrangeiro favorito e me inspirou a iniciar no mundo da pesca com mosca.
Minha aventura começa uma semana antes, quando me encontro com meu amigo Antonio Sevilla, em Madri. Depois de me apanhar no aeroporto de Barajas me levou ao centro da cidade para tomarmos café da manhã e visitar um Fly shop. Precisava de alguns itens "essenciais". Quem é pescador entende.
Foram cerca de 7h de viagem, incluindo uma parada para almoço e abastecimento. Ainda era dia quando entramos na pousada, apesar de ser 20h. No verão europeu os dias são extremamente longos.
Acordamos bem cedo no outro dia e após um breve café com churros e Pan con Jamon, seguimos para o rio Segre, famoso pela pesca de trutas nos Pirineus.
Começamos batendo um trecho bem largo e raso, onde conseguimos ver algumas trutas e barbos comendo. Depois de alguns minutos, Antonio conseguiu enganar a primeira truta da viagem, com uma Adams em anzol #'14, uma linda marrom, na faixa de 500g.
Após tentar exaustivamente nesse trecho, sem sucesso, comecei a subir o rio em busca de outro ponto.
Cerca de 300m acima avistei um enorme poço, onde algumas trutas pequenas comiam na superfície. Já tinha trocado de mosca várias vezes, tentando achar o que elas comiam, quando olhei para um gafanhoto atado em um anzol #8 que descansava na flybox há anos, pois onde moro, raramente os uso. Mesmo correndo o risco de ser julgado pelo meu amigo purista que só usa dryflies diminutos e clássicos, atei o hopper de E.V.A num tippet de 12 pés, 4x. A vara era uma orvis trident 5wt em conjunto com uma carretilha Teton 3/4, carregada com uma linha flutuante número #4. (tática comum para suavizar a apresentação da mosca).
Lancei bem no meio do poço e corrigi algumas vezes a trajetória da isca para evitar o "drag" usando mends. No terceiro arremesso vejo um vulto prateado subir e abocanhar sem cerimônia a isca e saltar logo em seguida, era uma arco-iris enorme!
Comecei a gritar para que o Antonio viesse até mim para me ajudar naquele embate que estava começando.
Aquele bólido desgovernado tomava linha e saltava sem parar, aumentando minha agonia. Após alguns minutos, que pareceram intermináveis, ela se entregou e entrou suavemente no passaguá sustentado pelo meu parceiro incrédulo que gritou: "Por Dios". Ficou mais surpreso ainda quando viu na boca do peixe aquela isca pouco ortodoxa naquelas bandas. Sorri discretamente e não disse nada.
Minha emoção era tanta que não conseguia proferir uma palavra sequer, só balançava a cabeça positivamente. Fotografamos e liberamos minha primeira truta européia, e que truta!






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